Slow Design e uma nova concepção de decoração

Slow Design e uma nova concepção de decoração

Nossa casa geralmente é um lugar de aconchego e segurança. Não há sensação melhor que entrar em casa e se sentir acolhido, mesmo que ela esteja vazia de pessoas. Porque o que nos faz sentirmos assim geralmente são as lembranças do que vivemos ali e também os objetos  e plantas ou móveis que mantemos que relatam nossa história e nos fazem conectar a quem realmente somos.

No entanto, nos dias atuais, em muitos lares tudo parece ser feito de forma meio automatizada, com pressa e sem conexão com quem realmente está ali. A estética, muitas vezes influenciada pelo consumismo, é a que prevalece. Um quadro comprado no supermercado porque o artista (que você não conhece pessoalmente) é popular, o sofá que imita o design de outro super premiado estava barato em uma liquidação e o antigo que tinha sido comprado há apenas 1 anos já não servia mais, um porta retrato com a foto da revista porque não deu tempo de mandar imprimir uma foto digital de quem mora ali. Essa deve ser a realidade de muitas casas. Mas será que essa casa combina esse novo tempo em que vivemos? Para muitas pessoas, já não mais.

O movimento slow é uma tendência que tem ganhado adeptos em muitas áreas  (já falamos aqui do slow food, do slow fashion) e não seria muito diferente em se tratando de design. Só que muitas pessoas acreditam que quando falamos de tendência em design estamos tratando apenas de novidades sofisticadas apresentadas nos salões de móveis de capitais europeias.

No entanto, quando falamos de slow design estamos justamente falando de aspectos nada inovadores, mas justamente da habilidade de resgatar em móveis e outros objetos alguns valores como a afetividade/historicidade  dos mesmos e sua longevidade. Nestes quesitos uma penteadeira herdada da avó faz muito mais sentido em uma vida mais desacelerada. Outro aspecto também abordado pelo slow design é a sustentabilidade (incluindo o uso de materiais ambientalmente corretos).  Ora, se você estende a vida útil de um objeto ou móvel, já é claro que estamos falando de sustentabilidade. E se você acrescentar a questão de que alguns objetos são feitos se pensando em reduzir o impacto ambiental e social no processo de manufatura, dando voz também a trabalhos manuais, você também está pensando em slow design.

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Armário composto de gavetas antigas feito pelo designer inglês Rupert Blanchard

Pode-se dizer que o termo foi inicialmente pelo usado em 2002 pelo designer e também professor finlandês  Alastair Fuad-Luke, quando em um movimento de repensar as criações, propôs a outros designers que projetassem coisas fora dos circuitos de grandes produções padronizadas.  A partir disso, uma grande reflexão aconteceu e o slow design retomou os valores originais dos objetos, como a questão artesanal e a conexão com todo o ambiente, surgindo com o propósito de promover o bem estar dos indivíduos e da sociedade em comunhão com a natureza .

Para o arquiteto brasileiro Alvaro Guillermo, estudioso do assunto, a questão não é ser devagar (ou slow), mas sim de ter a noção exata do tempo certo para cada coisa, para criar, produzir e usar o produto. Aí você consegue fazer toda a conexão com quem criou, quem o fez, como você usará o objeto e os valores que isso tem nos dias atuais. Para outras opiniões de adeptos do assunto, mais vale se conectar a algo único e criado próximo a você do que comprar uma peça produzida na China por sabe-se lá quem.

Contudo,  muitos reconhecem que os apelos do consumismo e dos preços dos objetos ainda são entraves para a divulgação da cultura do slow design. Produzir peças em grandes escalas é sempre mais vantajoso e rapidamente absorvido pela grande massa. Por necessitarem de pesquisas mais delongadas, ter escaldas de produção mais reduzidas e por não estarem constantemente no conhecimento das pessoas, produtos sustentáveis (relacionados ao slow design) ainda tem dificuldades em serem assimilados. Apenas com bastante informação e educação sobre o assunto, acredita-se que o slow design possa ser mais bem entendido.

Design Week_Slow Design Tshirt Chair
Cadeira criada com restos de T-Shirts de malha pela designer Maria Westerberg

Mas se ainda assim você se interessou pelo assunto, facilmente podemos elencar alguns aspectos que vão te ajudar na hora da escolha dos próximos móveis de sua casa:

– Considere os impactos sofridos ao meio ambiente pela produção do produto que está comprando;

– Avalie a durabilidade do objeto minimizando a necessidade de reparos e certificando-se de que terá como gerenciar a manutenção do mesmo;

– Evite comprar produtos feitos com materiais e processos poluidores. Informe-se antes!

– Respeite os prazos de projeto, desenvolvimento e produção do objeto, independente de modismos da época;

– Valorize produtos feitos localmente e incentive o trabalho artesanal e de pequenos produtores;

– Priorize produtos que tenham a sua identidade e que realmente sejam úteis em sua vida, ao invés de preferir produtos massificados e sem conexão com você;

– Dê preferência a produtos criados segundo sua própria necessidade e não aqueles que não se encaixam ao que você precisa.

– E por fim, leve em consideração diversos aspectos dos produtos comprados, materiais e não materiais, em uma visão holística do mesmo, apreciando quem fez, como fez, que recursos usou, quanto tempo levou, quais os sentimentos e sensações envolvidas e como você usará aquele produto.

 

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