Paz

Paz

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Se acabou, termina. Uma frase destas, que parece ser totalmente sem sentido, fez totalmente sentido para mim quando a ouvi, aleatoriamente, numa palestra a noite. Na noite que veio após uma tarde em que eu estava dominado por uma magoa que eu insistia em não reconhecer, por uma ansiedade que eu insistia em negar e por decisões minhas que eu ansiava que fossem tomadas por outros sem me dar conta disso, sem me dar conta que era esta a causa primária de toda a ansiedade. Na tarde em que um velho companheiro meu veio conversar comigo e me falar a verdade que eu insistia em ouvir como paranoia, o que me levava a agredir como condição primeira de argumentar. E o que ele me falava era exatamente isto, terminar o ciclo, que eu insistia em ter por terminado porque as coisas não terminaram da forma que eu imaginava ideal. E queria bater em retirada, em revolta e como vítima, achando-me bom e o mundo mau e injusto.

A origem? Ansiedade. Ancestral, socrática, uma vez que desde o Conhece-te a ti mesmo, cada vez mais buscamos escapar deste enigma que é nos conhecer a nós mesmos, pelos nossos olhos e não pelos olhos de narciso, os olhos dos outros sobre nós. Fazemos terapias freudianas infindáveis em busca de acharmos causas ou traumas remotos que justifiquem nossas atitudes de hoje e nos libertem , pelo menos da culpa da prática das mesmas se não pudermos parar com a própria prática. Conquistamos, conquistamos e conquistamos, dinheiro, parceiros, bens, transformamos nossa vida no antigo tabuleiro do jogo War, sempre com mais um território a ser conquistado. E depois, exaustos e infelizes, olhamos o simples como padrão de felicidade. As férias com a família, o almoço em paz sem celular, a imagem lúdica do camponês sentado após o dia de labuta transpirando calma em meio a exaustão. A velha e idílica praia deserta ou casinha de sapê, das quais no mundo real fugimos como o diabo foge da cruz. Mas antes da próxima respiração já nos culpamos pela distração e partimos para conquistar mais,mais e mais. Não sabemos para onde estamos indo, inventamos os porquês, mas pretendemos saber a hora de parar.

Só podemos falar do mundo que conhecemos. No meu caso de um senhor de pouco mais de cinquenta anos, possuidor de um bom emprego, que se casou, separou e teve duas filhas. Classe média normal, mas como quase todos, fora os poucos abençoados que já nasceram com uma bussola no cérebro ou no coração, desassogado pelo porvir, pelos inúmeros “se” que nem sei se virão. E nesta ânsia de viver o que ainda virá queremos nos desapegar o mais rápido do que já chegou, do que é para ser vivido hoje.

Custei (e ainda custo para manter) a achar uma estabilidade no meio do caos. A velha musica do Walter Franco, onde tudo é uma questão de manter a mente quieta, a coluna ereta e o coração tranquilo. Para quem é ansioso como eu sou, felicidade é encontrada em conseguir estar onde estou naquele momento, vivendo a opção e não as renúncias que foram feitas para estar ali. É caminho e não chegada, eu sei disso, questão de orar e vigiar constantes. Tentar controlar inutilmente a velocidade do raciocínio e da fala.

Na calma, conseguimos ver que fazemos parte de uma manada descontrolada,guiada por cães nem sempre leais ao rebanho. Por isto tantos movimentos slow isto, slow aquilo. Porque a ansiedade, o correr desenfreado sem final exaure, tira as energias para o que importa. Criar filhos, cuidar da saúde, da espiritualidade, fazer o bem e entramos numa onda de vibração positiva.

Remédios podem ser bem-vindos no processo de estabilização, desde que vistos como muletas e não solução. Porque se terceirizarmos a solução com remédios, médicos ou qualquer outra causa exógena, a chance tende a ser zero. Cada um deve buscar seu Deus interior, na imagem que mais lhe equilibre. Acho que estou conseguindo. Aos meus amigos, que são muitos, aviso. Estou em paz.

 

Geraldo Vasques

Geraldo Flávio Vasques é formado em direito e gastronomia, estudou psicologia e nas horas vagas adora escrever textão no facebook.

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