Instituto Chão: muito mais do que orgânicos a preço de produtor

Instituto Chão: muito mais do que orgânicos a preço de produtor

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Com viagem marcada para quarta, dia 13, fiz questão de aproveitar minha ida à terra da garoa para conhecer de perto o tão admirado Instituto Chão. Um espaço de convivência e economia solidária na forma de mercearia e café que vende produtos orgânicos e artesanais pelo preço do produtor. Isso mesmo, pelo mesmo preço que o produtor entrega a eles. Queria ver de perto como isso funcionava.

Fazendo jus à fama, a quinta na cidade de São Paulo amanheceu nublada e uma chuva fininha, quase imperceptível, deixava a temperatura bem amena. O que me ajudou bastante a subir e descer as ruas íngremes do Bairro Vila Madalena, reduto de bares, restaurantes, espaços artísticos, culturais e muitas, muuuuitas lojas charmosas.

Descobri que as ruas da Vila Madalena possuíam nomes líricos como: Paulistânia, Harmonia, Girassol, Purpurina, Wisard e Original. Segundo historiadores, assim foram batizadas por sugestão de estudantes, participantes do movimento anarquista. O uso de nomes poéticos tinha a intenção de quebrar a tradição urbana de homenagear autoridades públicas.

Como o Chão abre de quarta a sábado a partir das 10h, e tinha ouvido falar que para garantir uma compra na feira de orgânicos era bom chegar antes das 12 horas, fui logo pela manhã. Cheguei na estação Vila Madalena pouco antes das 10 horas e fui descendo a rua Harmonia, parando em umas três lojas em busca de dicas para o Garimpo Desvelocità. Achei! Mas depois eu conto, senão isso aqui vira um conto, quisá um livro. Em todas as lojas perguntava sobre o Chão e todos falavam a mesma coisa: está fazendo muito sucesso!!!

No número 123 (Harmonia, 123, que lindo isso, né gente?!) encontrei a casa onde ficava o Instituto Chão já cheio de clientes na parte da feirinha de hortifruti, que fica logo na entrada.

Entrei na fila da pesagem para pedir permissão para fotografar o local. Enquanto aguardava, já fiquei encantada com a atenção que os dois que lá estavam davam aos clientes, explicando tudinho, até que a cliente podia encontrar na internet uma forma de consumir as cascas de um legume que já me esqueci qual. E depois de dar todas as orientações ainda pediu desculpas por ter demorado no atendimento.  Esse era o Vítor, que disse eu que podia ficar à vontade para fazer o meu trabalho.

Sabia que eles atendiam à mídia às terças-feiras, por isso fui com a intenção de somente observar e fazer mínimas intervenções junto aos associados do Chão (são sete) que, aliás, tem somente eles de funcionários e não tem fins lucrativos.

 

Forma e liberdade

Trabalhamos com os princípios da Economia Solidária, uma forma de organização que coloca o ser humano como sujeito e finalidade da atividade econômica, articulando e integrando redes que fomentam a autonomia, o cooperativismo, o comércio justo e o consumo consciente. (site Instituto Chão)

 

O espaço é muito agradável, organizado e limpo. Os preços da feirinha realmente são atraentes. Cenoura orgânica a 3,50 o quilo; carambola (madurinha! ) a 5,00; banana e rúcula, 3 reais; manjericão, 2 reais? Eu quero demais!!!

E como eles fazem para se sustentar? Aí é que está o ponto central desse trabalho ambicioso. Inaugurado em maio de 2015, a abertura do local contou com investimento dos integrantes e através de financiamento coletivo. Em um imenso quadro acima dos caixas, que ficam no fundo da mercearia (ao contrário do convencional…), eles deixam expostas todas as despesas operacionais da casa (veja no álbum de fotos). Nele a gente fica sabendo que para cada 1 real vendido são necessários 39 centavos para manter o sistema funcionando. O cliente é livre para pagar os 39% adicionais, pagar outro valor ou mesmo uma mensalidade fixa de 60 reais. No quadro e nas redes sociais todos podem acompanhar as despesas, os resultados, projeções e que cada associado recebe R$ 4 mil reais por mês pelo trabalho. A previsão de vendas para janeiro de 2016 é de mais de 190 mil reais. Nada mal! Isso considerando que as vendas do mês começaram dia 13, pois, desde o dia 25 de dezembro, eles estavam de recesso. Inclusive, essa parte foi um susto. No quadro constava que a arrecadação de contribuições até o dia 12 tinha sido de zero reais! Foi aí que a Ágatha (um doce, uma simpatia), que estava no caixa junto com o Vladimir, me explicou que era devido ao recesso, somado ao fato de que as atualizações na placa são semanais. Cheguei a pensar que as pessoas não tinham consciência, que o mundo não tinha jeito, como não contribuíam com nada??? Ela riu muito do meu pânico. Hehehe

Já com o recesso, não me espantei, afinal eles são Geração Y mesmo (leia mais aqui). Vida pessoal é importante, exploração não é bem vinda. Cheguei a ficar meio borocochô quando vi a placa informando que o café não estava funcionando no dia. Fui até com a barriguinha mais vazia, só na expectativa. Mais uma vez a Àgatha me socorreu com explicações. A Carol, que é casada com o Fábio, é quem cuida do bar e como estamos em época de férias escolares, ela ficou em casa cuidando da filhinha. E assim eles vão se revezando. Flexibilidade faz parte da rotina dos sete associados. E sabendo disso tudo a gente passa a nem se importar se o café está fechado, se domingo, segunda e terça tudo está fechado. A gente passa a apoiar um ideal!

 

Qual é a diferença?

Além de ser mais transparente, esta é uma forma mais eficiente de comercialização, já que não há exploração do produtor, nem de funcionários e, mesmo contribuindo para a manutenção do projeto, gasta-se menos comprando nesse modelo, pois, não há especulação nos preços dos produtos. Buscamos a construção de uma rede horizontal e participativa de relações comerciais, priorizando pequenos produtores e relações de trabalho mais democráticas. Assim, amplia-se o consumo de produtos mais sustentáveis, promove-se a distribuição de renda e a descentralização do poder. (site Instituto Chão)

 

Mas voltando às minhas percepções do espaço, ser cliente do Chão é mais do que fazer compras de orgânicos, é uma demonstração de consciência na forma de se consumir, é uma demonstração de respeito ao meio ambiente, às pessoas. O clima é amistoso e tem um que de família, de aconchego. Tem criança correndo para não ir embora! Mesmo as mesinhas do café na parte externa estando fechadas, as pessoas compram bolo (R$ 1,50 o pedaço) e comem no banco de alvenaria junto ao muro descolado de grafite. Batem papo com a gente e dizem que vão sempre lá e que fazem questão de pagar a contribuição.

Na parte interna da mercearia tem de tudo um pouco: arroz, feijão, café, farinhas, grãos, bolos, biscoitos, sucos, queijos, geléias, refrigerantes, cervejas, produtos de higiene e limpeza.  Também é possível encontrar plantas e objetos de decoração em cerâmica. Tudo exposto em estantes de madeira, com iluminação natural, teto de telha colonial, lustre de ferro, varandinha no segundo andar, um clima de casa mesmo. Os mais de 50 fornecedores são pequenos produtores, muitos de assentamentos rurais e cooperativas de agricultura familiar.

Comprei feijão, suco de uva, sabonete e biscoitinhos. Quem passou a minha compra foi a Ágatha que ao final me perguntou se eu gostaria de contribuir. Por favor!!! Como não?! Sim!!! Vocês merecem demais!

Tomei meu suco com calma, como quem queria ficar bem mais que um pouquinho. Fiquei pensando que ajustes serão naturais, mas que seria muito bom a essência permanecer. Me despedi do Vítor, que estava ainda mais atarefado, pois muito mais pessoas haviam chegado e a fila estava grande na pesagem, e parti.

Subi a Harmonia feliz da vida com a minha sacolinha. Tem muita coisa mudando por aqui, por aí, por lá, em muitos lugares…

E a garôa seguia…

 

O que

Instituto Chão

Quem

Thiago Guardia, 30 anos, formação: Marketing;

Fabio Mendes, 30 anos, formação: Filosofia;

Vladimir Paternostro, 30 anos, formação: Engenheira Ambiental;

Carolina Morelli, 35, formação: Psicologia;

Luiz Fernando Schreiner, 31, formação: Engenharia Metalúrgica;

Vitor Mortara, 28, formação: Letras;

Agatha Fernandes, 28, formação: Ciências Sociais.

Onde

Rua Harmonia, 123, Vila Madalena, São Paulo – SP

contato@institutochao.com.br  | (11) 3530-0907

www.institutochao.org

Quando

Quarta e quinta

Mercearia e feira: das 10 às 20h | Cafeteria: das 14h às 19h30

Sexta

Mercearia e feira: das 10 às 16h30h | Cafeteria: das 10h às 20h

Música ao vivo: das 17 às 21h

Sábado

Mercearia, feira e cafeteria: das 10h às 18h

Crédito foto de destaque do texto: Coisos On The Go

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