De Excrementis Diaboli – Rubem Alves

De Excrementis Diaboli – Rubem Alves

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Segundo os que acreditam em vidas passadas, eu já devo ter sido papa ou cardeal. E isso porque, vez por outra, sinto um impulso irresistível para escrever encíclicas. Tenho, inclusive, uma já pronta no arquivo “Encíclicas” do meu computador. É a De rerum vetustarum, a substância da qual sendo a volta obrigatória e universal do latim em todas as coisas da Igreja, com as devidas justificativas pastorais para tal retorno a uma prática velha abandonada. Pois o tal impulso irresistível para escrever encíclicas está me atacando de novo, e já tenho pronto o esboço da próxima, intitulada De excrementis diaboli.

Publicada no jornal Folha de S. Paulo.

Explico o caminho que me levou a tal decisão. Tudo começou com minha preocupação com o lixo. Nas zonas rurais antigas lixo não existia. As bananeiras e outras plantas eram revitalizadas pelos excrementos humanos, e os porcos, galinhas e cachorros tratavam de reciclar todas as sobras orgânicas de comida sendo que, naqueles tempos, nada havia que se assemelhasse a plástico, garrafas, latas de refrigerantes e pneus. O lixo estava integrado à vida.

O lixo se tornou um problema nas cidades. Sem moitas de bananeiras e similares e sem os recicladores animais, as fezes, a urina e as sobras se transformavam em montanhas, tornando-se morada de ratos, baratas, moscas e de todos os tipos de pragas microscópicas. Tão horrível era a situação que surgiu a necessidade de serviços públicos para a coleta do lixo e, se não me engano, a Genebra do férreo Calvino foi à primeira cidade a cuidar do assunto.

Hoje o problema do lixo assume proporções apocalípticas e infernais. As toneladas de fezes e urina produzidas pelos milhões que moram nas grandes cidades são impensáveis – e vivemos na ilusão de que uma descarga de água na privada tem o poder de fazê-Ias desaparecer magicamente. “Longe dos olhos, longe do coração – e do pensamento.”

O problema fica infinitamente mais grave quando pensamos nos novos e fantásticos materiais produzidos pela ciência e pela indústria. Os plásticos, os pneus, as garrafas, as latas de refrigerantes, o papel (aproxima-se o Natal, e com ele o dilúvio). Para onde vão? Vão para algum lugar e aí ficam, sendo que os produtos de plástico e os pneus atravessam os milênios.

Para mim essa era uma questão puramente acadêmica, embora dolorosa. Mas aí, eu vi. Havia na Unicamp um dia em que a universidade ficava aberta à visitação dos jovens que sonhavam com uma carreira acadêmica e científica. Pois no day after à visita desses produtos acabados da nossa educação, o campus parecia o Armagedon depois da batalha: o lixo espalhado por todos os lados teria sido motivo para uma tela infernal de Bosch. E o meu amigo professor Hermógenes, diretor do Horto da universidade, contavame que era preciso plantar árvores novas para substituir as jovens e tenras que haviam sido quebradas pelos visitantes.

Aposentei-me. Esqueci-me. Mas aí as visões apocalípticas do lixo me voltaram quando visitei Caruaru, cidade de povo gentil e artesãos maravilhosos. Pois o que mais me impressionou não foi a sua monumental feira de artesanato, mas o lixo espalhado por toda parte. Disse, para mim mesmo, que se eu fosse prefeito daquela cidade, meu primeiro ato seria convocar um mutirão de todo mundo, eu na frente, para catar o lixo. Limpeza é coisa boa. Faz bem aos olhos. Faz bem ao nariz. Faz bem à saúde.

O tempo passou. Novamente me esqueci. Aí visitei Aparecida do Norte, santuário da bendita Virgem, padroeira do Brasil, amada por todos. Pois o lixo que se acumulava ao redor da Basílica era ainda maior. Fiquei horrorizado porque pensava que quem ama a Virgem deve amar e cuidar da limpeza de sua casa. Pois é certo que a casta mãe do Salvador devia amar a limpeza. Caso contrário não teria sido escolhida.

Dei-me conta, então, de que nunca ouvi nem padre, nem pastor, nem guru, nem vidente, nem missionário, nem bispo, pregar sermão contra o lixo. Pois o lixo está para esse mundo de Deus da mesma forma como o pecado está para as almas. Se é preciso limpar as almas, é preciso também limpar o mundo.

Foi então que me surgiu a idéia da encíclica De excrementis diaboli. Compõe-se de três partes:

Na primeira anuncia-se a criação de uma nova ordem, à semelhança dos dominicanos, franciscanos, camilianos, jesuítas etc. Será uma ordem que se dedicará a um serviço humilde e necessário: a catação do lixo. Será comovente ver os frades saindo diariamente com seus sacos de aniagem (não de plástico; o plástico polui) pelas ruas, praças, feiras, pelos mercados, pátios de basílicas, parques, catando o lixo. Vale, sobretudo, o seu exemplo.

Na segunda parte a encíclica estabelece que o ato de jogar lixo é pecado mortal. Assim, nas confissões, esgotados os adultérios, furtos e mentiras, o confessor perguntará: “E quanto ao lixo, meu filho? Fale sobre os lixos que você tem jogado neste mundo de Deus”.

Finalmente, a encíclica estabelece um novo tipo de penitência. As penitências comuns, sob a forma de repetições de rezas, encorajam os pecadores à reincidência, posto que podem ser cumpridas de forma mecânica, sem sofrimento. As penitências serão transformadas em sacos de lixo. Mentiras, cinco sacos de lixo cheios. Infidelidade, quinze sacos de lixo cheios. Violência, cinqüenta sacos de lixo cheios. E assim por diante. A absolvição só será dada depois da entrega dos sacos de lixo.

Há indicações teológicas de que o lixo é uma manifestação anal-escatológica dos aparelhos excretores do Diabo, fezes e gases que ele expele, com o propósito de zombar do Criador e empestear a Criação, o que explica o título da encíclica, Sobre os excrementos do diabo. Assim sendo, o ato de catar lixo se transforma em virtude cujo objetivo é limpar o mundo das fezes do Coisa-Ruim, para assim restabelecer o Paraíso perfumado e limpo que Deus criou. Limpeza é virtude teologal.

Bem, se a encíclica nunca vier a ser promulgada, os líderes religiosos bem que poderiam brincar com a idéia.

(Rubem Alves, 2003, Livro: O amor que acende a lua)

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