Direção vs Velocidade: como encontrar equilíbrio entre o “ser” e o “ter”?

Direção vs Velocidade: como encontrar equilíbrio entre o “ser” e o “ter”?

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Ao mesmo tempo em que a vida moderna nos traz incontáveis benefícios em virtualmente todas as suas dimensões, ela também tem se revelado como um dos nossos piores e mais implacáveis inimigos, que nos sabota de forma invisível, sem que o percebamos conscientemente. Esse é um dos maiores perigos que enfrentamos hoje, pois para aproveitarmos as bênçãos que se apresentam em nossa vida, precisamos estar também cientes e preparados para as maldições que as acompanham. Será que estamos? Vejamos…

A Velocidade e o “ter & fazer”

Se você tivesse que escolher apenas uma palavra para definir a era em que vivemos, qual seria essa palavra? Mudança, inovação, tecnologia, informação, velocidade, social, digital, mobile? Indubitavelmente, todos esses termos caracterizam essencialmente a nossa vida atual, mas acredito que o tom que melhor representa o nosso tempo é a velocidade. Alguns argumentam que vivemos a Era da Mudança, mas podemos contra-argumentar constatando que sofremos uma mudança de era, regida por um ritmo vertiginoso inédito de transformações devido ao aumento de velocidade que a tecnologia nos impõe. Uma das principais consequências imediatas desse fenômeno é a multiplicação exponencial de possibilidades (variedade) e quantidade (volume) das opções que se apresentam em nossa vida a cada momento.

Por exemplo, nesse exato instante, além desse artigo que você está lendo, quantas outras atividades atrativas (variedade e volume) você tem pra fazer? Para assistir (milhares canais de TV, Netflix, Apps, cinema, etc)? E músicas (iTunes, Spotify, Apple Music, etc.)? Quantas lojas estão disponíveis (24/7) te oferecendo produtos irresistíveis para comprar online? E livros (tablets, Amazon Prime, bases gratuitas)? E jogos? E mídias sociais dos mais diversos tipos? E assim vai, desde opções de entretenimento até de educação e consumo em geral, com incontáveis variedades que vão das gratuitas às pagas, inundando cada segundo da nossa existência. Do universo mais mundano ao mais celestial, o labirinto de escolhas torna-se cada vez mais denso e consome cada vez mais tempo e energia.

Outra consequência disso é o aumento do FOMO (Fear Of Missing Out), que é o “medo de ficar por fora”, ou, em outras palavras, aquela sensação de que enquanto faço algo aqui posso estar perdendo algo interessante que está acontecendo em algum outro lugar. Um exemplo disso é quando estamos exaustos e gostaríamos de ficar em casa descansando, mas não deixamos de ir a uma festa para não correr o risco de perder oportunidades, ou então, a sensação de inquietação quando ainda não lemos um livro que deveríamos ter lido, ou assistido um filme que todos comentam. Isso já acontecia no século passado, portanto FOMO não é um fenômeno novo. No entanto, hoje, com o aumento drástico das opções disponíveis no mundo a todo momento, ele se intensifica fortemente, causando uma tensão constante no nosso cérebro. Dessa forma, o aumento do FOMO causa tentações contínuas que nos desequilibram.

Somando-se a isso, o aumento da variedade e volume de tudo no cotidiano impacta uma outra dimensão essencial de nossas vidas: a força de vontade que temos disponível a cada momento para fazer análises e tomar decisões. Ao contrário do que se imagina, a força de vontade não é um fator constante no nosso organismo, mas uma habilidade que diminui conforme a vamos utilizando – esse efeito é batizado de “Decision Fatigue”, ou, “Fatiga de Decidir”. Em outras palavras, quanto mais decisões somos obrigados a tomar ao longo do dia, mais debilitados vamos ficando para tomar novas decisões, pois cada uma delas consome um pouco da nossa força de vontade disponível, diminuindo (e, eventualmente, esgotando) o seu estoque para ser usado nas próximas decisões. Esse processo prejudica a nossa capacidade de julgamento e ação. Portanto, podemos deduzir que o aumento das opções que o contexto atual apresenta contribui para o crescimento do “Decision Fatigue”.

Se não bastasse a aceleração do mundo ao nosso redor, estudos comprovam que a velocidade está aumentando também dentro de nós. Pessoas que estão frequentemente online tendem a pensar que uma hora passou quando na realidade foram apenas 50 minutos. Assim, o uso constante de tecnologia afeta a nossa percepção sobre o tempo, acelerando o nosso marcador cronológico interno. Isso pode nos ajudar a trabalhar mais rápido, mas também nos faz sentir mais pressionados, causando uma sensação de que o tempo disponível é menor, resultando em maior stress.

Velocidade vs Direção

Portanto, o estilo de vida tecnológico transforma três dimensões importantes da nossa existência, que sofreram uma aceleração profunda na última década: a velocidade, o volume e a variedade em nosso cotidiano. Embora isso aumente muito o nosso potencial para “ter e fazer”, traz também consequências perigosas para o nosso “ser”: o aumento do stress e da distração e adiminuição da nossa força de vontade, que afetam sensivelmente o modo como percebemos e agimos no mundo.

A distração evita que mantenhamos o foco no que realmente interessa, pois o volume e variedade de opções nos coloca num estado contínuo de interrupção e multitasking. O stress “ofusca” o cérebro, prejudicando a clareza de decisão. E, finalmente, a diminuição da força de vontade compromete o nosso discernimento para analisar, ponderar e decidir. Dessa forma, estamos nos tornando cada vez mais seres conectados e aparelhados exteriormente, mas mais desconectados e dispersos internamente; mais ocupados e menos produtivos; mais distraídos e menos conscientes; com mais coisas e com menos sentido; fazendo mais e pensando menos; poderosos e impotentes ao mesmo tempo.

A questão que fica então é: como equilibrar a velocidade que o mundo nos impõe com a direção que queremos e precisamos para sermos felizes? A velocidade é boa desde que nos leve para a direção certa, caso contrário, ela nos afasta ainda mais rapidamente do nosso destino. Por outro lado, não adianta sabermos exatamente para onde queremos ir se não nos movemos — se ficarmos parados, nunca chegaremos lá. Portanto, o desafio nosso de cada dia está em conseguirmos aproveitar ao máximo a velocidade do mundo para produzir (ter e fazer) sem comprometermos a direção do nosso propósito, nossa essência pessoal (ser). Não existe uma receita mágica para tanto, mas eu acredito que o equilíbrio está se utilizar todas as nossas forças e recursos disponíveis para acelerar o máximo possível, até o limite de não se perder o foco, estando sempre atento e consciente para jamais ultrapassa-lo. Penso que esse é o ponto que garante o equilíbrio entre o “ter/fazer” e “ser” – estar alerta, o tempo todo, para não se perder no caminho!

“O homem que não tem vida interior
é escravo do ambiente que o cerca.”
— Henri Frederic Amiel 

Tento aplicar esse princípio todos os dias de minha vida – levanto da cama sempre disposta a fazer o meu máximo e o mais rapidamente possível, mas sem esquecer de quem sou e porque estou fazendo cada coisa a cada instante. Isso não é fácil, e, para tanto, relaciono a seguir alguns processos que me ajudam a me manter nos trilhos da vida, sem descarrilhar, e espero que te auxiliem também. Se você parar para pensar um pouco sobre eles, já fico feliz e esse texto já valeu a pena. Aí vão, então:

A Direção e o “Ser”


Simplificar
(eliminar ruídos e opções menos relevantes que nos desviam) – Elimine da sua vida tudo aquilo que não contribui para a sua felicidade. Deixe apenas o que importa – isso vale para objetos, contatos, eventos, viagens, perfis em mídias sociais, grupos no WhatsApp, roupas, etc. Tudo mesmo! Não importa o quanto aquilo seja bonito ou atrativo, se está te consumindo sem te fazer feliz, está te atrapalhando para fazer outra coisa. Analise tudo o que existe na sua vida, e simplifique tudo o que puder. A nossa natureza humana tende a querer acumular recursos, pois isso fazia todo o sentido na época em que o homem vivia nas cavernas com a incerteza da próxima caça. Isso tornou-se um instinto automático, mas temos que lutar contra ele, pois hoje, como o cenário é o oposto, e a lógica do acúmulo que era essencial para a sobrevivência no passado passa a ser o veneno que está nos matando no presente. Ao invés de queremos e buscarmos o máximo de opções e acúmulo em nossas vidas, que tal focarmos no mínimo? Qual é o mínimo de opções em tudo que preciso para ser feliz? Quando eliminamos coisas, ficamos apenas com aquilo que realmente importa, reduzindo o ruído e a dispersão de energia, que passa a ser gasta apenas com aquilo que nos faz feliz e produtivos. Dessa forma, não deixamos o que não queremos atrapalhar o caminho para o que queremos. Além disso, quando simplificamos e eliminamos opções: 1) diminuímos o nosso Decision Fatigue, melhorando a qualidade das nossas decisões; 2) aumentamos a produtividade, por eliminação de dispersão e; 3) colaboramos para a sustentabilidade, utilizando e consumindo apenas o necessário.

Valorizar Ritos de Passagem e momentos (reconhecer e celebrar cada marco, cada conquista parcial importante, e não apenas o ponto final) – Ritos de passagem são degraus para um patamar mais alto, o reconhecimento de uma mudança de etapa que nos liberta das amarras do nível anterior e nos prepara para o próximo. Festas de 15 anos, nascimentos, batizados, casamentos, bar-mitzvá, anos escolares, faixas no judô, medalhas, diplomas, aniversários, Natal, Ação de Graças, ano novo, datas especiais, marcos de conquista – são ritos de passagens. Por que precisamos deles? Porque estruturam a vida em etapas para que tenhamos motivação, apreciemos nossas conquistas e nos mantenhamos no curso que devemos. Ao invés de celebrarmos apenas quando nos tornamos presidentes de uma empresa, se celebrarmos cada etapa no caminho: estagiário, profissional júnior, sênior, gestor, diretor etc, teremos várias celebrações e pontos de reflexões para nos manterem no caminho certo, que, eventualmente, não será mais ser um CEO. Outro benefício em se valorizar os ritos de passagem é que eles são melhor antídoto contra a ilusão do tempo. Vivemos todos os dias como se tivemos mais dias infinitos para viver. No entanto, quando celebramos um aniversário, nos damos conta que talvez não tenhamos ainda mais tantos anos para viver, e passamos, assim, a valorizar cada vez mais o nosso tempo restante. Temos a ilusão de que poderemos viajar e conhecer o mundo todo, mas quando paramos para celebrar cada férias, percebemos que talvez tenhamos apenas mais umas 20 ou 30 férias na vida… será que dá pra ver tudo mesmo? Temos a sensação que podemos ler quantos livros quisermos, mas se você lê 5 livros por ano e ainda tem em média mais 50 anos para viver, você só conseguirá ler na realidade 250 livros durante toda a sua vida. Se você mora fora e só consegue ver os seus pais 1 dia por mês, isso significa que você os vê 12 vezes por ano. Imaginando que você tenha ainda tenha mais uns 30 anos em média para conviver com os seus pais, você terá apenas 360 dias com eles… isso muda a nossa ilusão diária de que todos que estão nas nossas vidas estarão lá para sempre. Esse processo faz com que consigamos dar o verdadeiro valor para cada evento em nossas vidas, facilitando que nos mantenhamos na direção certa e escolhamos onde aplicar a nossa velocidade.

Meditar (alinhar dentro e fora do nosso ser para priorizar o que interessa e dar a direção) – A meditação é um processo de desligar todas as interferências (internas e externas) para permitir que “ouçamos” simultaneamente a nossa essência e o universo, permitindo, assim, conecta-los. Em outras palavras, por meio da meditação, colocamos em real alinhamento o nosso ser e o universo, para sabermos qual é o nosso real propósito, nosso caminho a seguir. Mesmo que você não medite diariamente, você pode substituir a meditação por alguma forma de reflexão sobre isso. Quanto tempo você dedica por dia para realmente pensar na vida, suas opções, seu propósito? Sem isso, não conseguimos determinar o que é prioritário ou não. Goethe dizia que “as coisas que mais importam nunca devem ficar à mercê das coisas que importam menos”, e acredito que para discernimos entre elas, é essencial desligarmos um pouquinho todos os dias para combater a velocidade esmagadora e podermos pensar para acertar a direção.

 O Equilíbrio

Todos morreremos um dia, e se pensarmos bem, esse é o destino derradeiro que une toda a humanidade. Portanto, se somos todos iguais na morte, o que nos diferencia é justamente a vida e aquilo que nos tornamos vivendo. A vida não deve ser uma corrida para a morte, mas uma jornada de lapidação do nosso ser. Acredito que a frase que Malcolm Wallace diz para o seu filho William, no filmeBrave Heart, sumariza isso: “Todo homem morre, mas nem todos vivem”. Se não pararmos para pensar e assumir a direção de nossas vidas para valorizar o nosso “ser” de cada dia, preservando a nossa essência, estaremos condenados à velocidade do mundo que nos consumirá pelos infindáveis caminhos do querer, que levam apenas ao “ter e fazer” dispersos.

Por: Martha Gabriel, consultora, escritora e palestrante.

Fonte: Linkedin Martha Gabriel

 

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