O bordado mora ao lado…

posted in: Fashion & Design, Histórias | 0

11816961_10206281265543439_5974681269328758338_nFaz parte da sua rotina, todos os dias você vê, mas não se dá conta da importância que aquilo tem. Na correria dos afazeres do dia a dia, no mundo ansioso que vivemos hoje, quase não há tempo para se perceber algumas sutilezas. Mas quando você então passa a ter uma relação diferente com o tempo, o seu olhar também muda. Com mais calma e tranquilidade, a percepção se amplia e agora você passa a enxergar coisas que antes passavam despercebidas.

Foi assim com os bordados. Todos os dias de minha vida, vi minha mãe bordando, mas nunca prestei realmente atenção no que isso significava. Há poucas semanas, uma aluna, já madura e com experiência, veio me mostrar um antigo mostruário de bordado que tinha feito em sua juventude. Mostrou-me também, orgulhosa, um tipo de trabalho manual o qual não se vê mais hoje, tempos de produtos de moda industriais e massificados.  Na mesma semana uma marca famosa de tênis lançou um modelo feito com inspiração em tribos mexicanas, inteirinho bordado de miçangas em uma técnica peculiar dessas tribos. Navegando pelo Youtube pra escolher uma música vejo um vídeo de uma blogueira ensinando a fazer bordados de pedraria (Uau!!). E por fim, pinando curiosidades no Pinterest, descubro um mundo de referências de pontos para bordados, motivos e riscos que me fez lembrar lá do começo da história. Do tempo que minha mãe passa por dia bordando, fazendo coisas maravilhosas, sempre alegrando alguém com seus presentes super caprichados, com seu trabalho paciente, amiga do tempo, porque neste assunto não adianta querer apressar as coisas.

Pode-se dizer que os bordados surgiram desde que se tem agulha e linha e algo que sirva como tecido, ou seja, lá na pré-história, e por isso talvez seja uma das artes aplicadas mais antigas. Agulhas de osso e linhas feitas de fibras vegetais já faziam o trabalho de ornamentação, com pontos simples, talvez o primórdio do ponto cruz.  E diferentemente de outros artesanatos têxteis, ele tem uma função puramente estética. Mas ao longo dos anos, os bordados, seja pelo tipo de material usado (desde fibras a até fios de ouro, passando por apenas linhas e chegando ao emprego de objetos e contas e pedras preciosas) ou pelo motivo do mesmo, são um retrato interessante da cultura de um povo. Resquícios históricos de povos do oriente na região do Rio Eufrates mostram que os bordados faziam parte do vestuário dos povos das civilizações antigas. A partir do século VII, a arte de bordar chegou ao ocidente e tornou-se bastante comum o ofício entre religiosos e posteriormente em mulheres da corte. Após a idade média, se tornou costume bordar também cenas/motivos  religiosos, históricos e do dia a dia em formatos de tapetes e painéis. Seu uso se estendeu a decoração e expandiu-se ainda mais.  Da mesma forma, técnicas e materiais também evoluíram, chegando a uma infinidade e variedade enorme de possibilidades. Mas com a Revolução Industrial as primeiras máquinas de bordar surgiram no XVIII, e desde então o trabalho manual ainda luta para ser valorizado. Bordados mecanizados, bem como roupas feitas em grandes quantidades, ocuparam grande percentual dos tipos de produtos produzidos tanto para moda vestuário quanto para moda casa. A partir da popularização das máquinas de costura e de bordar, o ofício se tornou cada vez mais especializado e somente mãos treinadas e experientes foram capazes de manter as técnicas durante os anos.

Mas o bordar ainda é um ofício que corre o risco de se perder no tempo, como me  lembrou minha aluna com seu trabalho em frivolité. Alguém aí sabe o que é isso? Bordar é um ofício passado nas famílias pelos mais velhos aos mais jovens e os mais jovens hoje já não se interessam tanto pela arte de bordar. E inúmeras são as virtudes que se adquire ao aprender a bordar. Funciona como uma imersão de paciência em um mundo onde o tempo corrido não existe e as memórias são as melhores companheiras da criatividade. É até terapêutico, dizem uns. Só que muitos ainda não sabem disso.

new-balance-1
Tênis New Balance com bordados mexicanos (arte Huichol)

Mas será então o fim dos trabalhos manuais na moda?  Penso que não! Porque após passar muitos anos valorizando a cultura de massa e produtos industrializados, produtos consumidos sem muito questionamento, sem muita valorização, que logo ali vão ser descartados,  hoje a moda retoma a valorização de práticas que passaram muito tempo esquecidas. No entanto, o que vemos hoje em dia, é que peças bordadas em geral possuem grande valor agregado no mercado da moda devido ao tempo levado para sua confecção e a sua necessidade de mão de obra específica. E assim, o ciclo renasce. Se há valor para um bordado, há quem o queira fazer, quem o queira aprender, quem o queira em suas roupas. É o caminho para uma moda mais autoral, que valoriza seus profissionais, que valoriza peça por peça, que traz afetividade e encanto em cada trabalho produzido.

E pra matar a sua curiosidade, visite a nossa galeria com muitas fotos de bordados diversos!

Comentários

Comentarário(s)